teu nome
tenho uma flor em mim
que é só mar de pele osso e sal
tua alma quero conhecer
para teu corpo/livro descrever
em cada página em branco que encontrar
água de não beber
pétala de não tocar
entre os mariscos da carne
e os sentidos das conchas
minhas palavras tecidas
como dois dentes canininos
mordendo o que é feminino
em todo pulsar dos teus meios
tenho uma flor que é mar
que já me perfura a pele
de tanto sonhar teu nome
já mora em mim mar ci ele
ela era Bruna em noite de blues rasgado soltou a voz feito Joplin num canto desesperado por ser primeiro de abril aquele dia marcado a voz rasgou a garganta da santa loucura santa com tanta força no canto que até hoje me lembro daquela musa na sala com tua boca do inferno beijando meus dentes na fala (Artur Gomes) Pátria A(r)mada Desconcertos Editora - 2022
sábado, 11 de fevereiro de 2023
mar ci ele
frente ao espelho
frente ao espelho
penso
o tempo que não veio
o mar que se foi
o amor que não ficou
o mamilo dos teus seios
os olhos de um boi
tudo que restou
o sol a luz a cruz
a dor de não dormir
o berro a barra
a lua o punhal a faca
a fruta no quintal
a pele o tecido
a cor do teu vestido
a flor no temporal
a chuva o arco íris
teus olhos a retina
a cera a parafina
e a nossa vida de animal
anjo da guarda
anjo da guarda
não sou um anjo certo
estou sempre anjo torto
mas se fizer de mim
anjo da guarda
te guardarei a sete chaves
no armário do meu corpo
pound anas
pound anas
quero uma luz que me faça ver
na ana o que não é clara
e na clara o que não é gema
quero o poema da palavra escrita
maldita a dor de ainda ser poeta
quero a concreta carne da disputa
a bendita flecha do desejo
almejo o que não é seguro
o passo colocado em risco
a lâmina o abismo o cadafalso
quero uma luz que me faça ver
no escuro o que ainda não é claro
quando me deparo com a coisa
busco sempre entender o que ela é
as vezes é um mar tão profundo
que assim mesmo mergulho
mesmo sabendo que não vai dar pé.
trisre bahia
Triste Bahia
a música de Caetano desse tempo
me remete a Londres e Gregório de Mattos
em tudo que Caetano cantava
em tudo o que Gregório dizia
um tempo que me leva a Carolina
chegada da Argentina direto no Farol
com sua pele de luz
e seus cabelos de sol
o tempo tem seus relógios
e todo o mar tem areia
estrelas conchas e luas
reflexo de luz em suas algas
vejo ainda Carolina na rede da varanda
com os olhos fixos no mar
como iria me esquecer
como não iria me lembrar?
múltiplas poéticas
sargaço em tua boca espuma
em armação de búzios
tenho um amor sagrado
guardado como jura secreta
que ainda não fiz para laís
em teus cabelos girassóis de estrelas
que de tanto vê-las o meu olho vela
e o que tanto diz onda do mar não leva
da areia da praia onde grafei teu nome
para matar a sede e muito mais a fome
entranhada na carne como flor de lótus
grudada na pele como tatuagem
flutuando ao vento como leve pluma
no salgado corpo do além mar afora
sargaço em tua boca espuma
onde vivem peixes - na cumplicidade
do que escrevo agora
múltiplas poéticas
esfinge
uma flor do lírio
nasceu na minha frente
naquela tarde ali na sala
e a inda arde
nos meus olhos aquela flor
que transformou
meu corpo em alquimia
diante aquele ser até então desconhecido
olhei ponto por ponto
do teu corpo embaixo do vestido
e nunca poderia imaginar
que o que entre nós viria a ser traçado
já estava ali tecido
mas uma outra flor a esfinge – decifrou
e então logo me disse:
que comigo não iria ser feliz
pois a flor do lírio era a flor
que eu sempre
quis
múltiplas poéticas
na pele da memória
ondas sempre morrem no cais
nem sei se quero mais tanta procura
daquilo que não tenho
se nos olhos ainda tenho flores de dezembro
daquela manhã ainda me lembro
adele tinha a pele branca
como uma bruma de vênus
em tuas costas uma palavra indígena:
Bertioga
a tua língua macia me trazia o gozo
e nunca fora de menos
com a boca de água e sal me lambia
depois dos beijos molhados
nos lençóis de areia
a carne da
palavra
: POESIA
l a v r a q u e s o l e t r o
todo Dia
poema do terceiro dia
remover a pedra dos rins
a faca dos dentes
a escama seca da espinha da serpente
retirar da carne o sal que restou do mar
e me mandar para outras águas
de preferência água doce
antes que o mar me salgue
antes que o mar me cegue
peço a Oxum que me leve
por onde eu ainda possa me salvar
fluxus
como flor
de lótus
ela se abriu entre a lua e o girassol
deixou meus lábios molhados
os olhos alvoroçados
por tanta delicadeza
talvez até fosse tigresa
mas mora em mim a certeza
que és felina Leoa
e faz de mim tua presa
me transformando em pessoa
pluma
a pluma é leve
flutua no ar com simples sopro
o amor também é leve
levita no ar sobre teu corpo
o que sei dele ainda é pouco
por isso procuro feito um louco
como se estivesse em minhas mãos
mas não está.
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